A strange game.
The only winning move is not to play.
(At all)
fragmentos de um diário em uma metrópole/personagem
1.it's happening (is that so?) now
Ontem eu andava olhando os arranha-céus em uma grande avenida de uma das maiores metrópoles do planeta. Olhava apenas para o alto, aqui e lá, para frente e para os lados, jamais me detendo nas pessoas ao meu redor, quiçá encarando-as nos olhos. E como naquela estranha sensação que se tem de saber quando há mais alguém em casa mesmo sem escutar ou ver, sabia que me encaravam. Me analisavam de cima a baixo, como uma figura exótica a seu habitat. Andando solitário por aquela avenida de tantos sotaques, formas, cores, texturas, odores, ruídos e tamanhos...tantos "ser" e tantos "estar", tantos "aqui" e tantos "por vir". A cima e aos meus lados todos e tudo ia e vinha.
(aquela propaganda com aquela moça naquela outdoor gigante. Estranha porém óbiva semelhança com a personagem/pessoa no meu quarto, poucas quadras lá atrás)
Helicópteros passando sobre minha cabeça como em um filme sobre o Vietnã e todas essas pessoas indiferentes a eles. Todavia eu sou alguém - ou alguma coisa - ao qual/ao que não se pode passar indiferente. Réptil, réptil, banhando-se ao sol.
(horas mais tarde, ao anoitecer, a mesma personagem/pessoa no meu quarto indagaria se algo havia de errado com ela, pois todos a encaravam, sempre, todos os dias. E distanciavam-se de nós. Répteis, répteis, uma dupla/casal de sangue frio)
Nessa grande avenida havia tudo a disposição, a qualquer hora. Havia todos, a qualquer hora. Ainda assim me sentia a última pessoa/coisa a caminhar sobre a terra. Tantas vozes em tantas língüas e sotaques, fundindo-se umas as outras. Todavia me mantinha calado. Dirigir a palavra a alguém dias antes havia se mostrado estranho, para dizer o mínimo. Minha procedência era identificada na hora, gerando misto de estranheza, admiração e respeito. Algo peculiar, lúdico aos olhos dos outros; como se minhas palavras fossem a justificativa reconfortante aos meus interlocutores do PORQUE de eu ser "daquele jeito."
(luz entrando pelos entremeios das persianas das grandes e onipresentes janelas da sala/quarto. A personagem/pessoa ao meu lado na cama, em devaneios anglo-franceses. Alva pela contra minha alva pele. Um sotaque que passei a amar em apenas três segundos após anos de desconforto. O som do ventilador ligado...feels like home)
O quarto/testemunha era um mundo paralelo ao já mundo paralelo lá de fora. Lá fora...estranho. A poucos passos, mas ainda assim tão onírico daqui parecia, com suas sirenes, gritos, ronco de motores, murmúrio distante de pessoas. A Deusa-Noir que me fatigava a alma ia e vinha, mas jamais me preenchia. Eu parecia, por outro lado, retribuir a essa personagem/pessoa que ela se apoderara na mesma moeda: minha devoção não era suficiente. Mas eu ainda haveria de testar minha fé...