as shy as a killer . . violence! posing and faking oil on veins, a picture of you flesh meets steel such beautiful uglyness tears in the rain


HANDS IN THE DARK
(touch and depart)


De repente eu seria outra pessoa, ao dobrar aquela esquina em direção ao metrô, apressado pela chuvinha fina que prenunciava algo mais forte dentro em breve. A cada passo mais alto, mais magro, mais ereto, cabelos mais escuros, olhos mais claros, semblante mais amadurecido. Desceria as escadas em quase pulos passo a passo, deslizando de um degrau ao outro. Pensamentos deslizando do temor urbano, sempre evocando canções cadenciadas e de versos de força, para uma cândida contemplação dos personagens metropolitanos a minha volta, a candura do cotidiano no encerrar de mais uma noite de volta ao lar, sem ansiedades, sem frios na barriga a cada aproximação. Apenas a análise ocasional do andar desse e daquele vendedor ou engenheiro, do perfume desta ou daquela estudante ou secretária, a conversa em tom baixo daquelas duas senhoras, o olhar curioso e cúmplice de um menino ao lado de seu pai. Pensar, olhar, respirar junto com eles, todos perdidos em seus momentos passageiros. Viajaria com eles para seus lares apenas em minha mente, agora e durante a jornada de metrô e, momentos mais tarde, fitando por fim o teto de meu quarto, daria boa noite a todos eles, no prolongar de minha presença quase intrusa em seus lares.

(see no evil)

Der repente eu seria outra pessoa, sentado ao balcão daquela lancheria 24h, tomando café com leite e abstraindo o televisor ligado atrás de mim. Seus murmúrios em mono compactados em suas pequenas saídas, sua textura luminosa, preto e branca não totalmente sublimadas, ainda ali, como que um vouyer de silício. Aos poucos ao meu redor, serviria de palco, amante e confessor noturno. Mas não a mim, já em colóquio misterioso com os grãos moídos, a água quente, o leite; o vapor sexual a permear minhas narinas. Minha segunda xícara da noite, minha terceira ereção em pouco mais de uma hora, fitando apenas as luzes difusas do pequeno e antigo televisor refletido no encardido espelho atrás do balcão. Minha amante noturna, ali, em sintética presença, observando-me por cima de meu ombro. Sua voz difusa, difusa, difusa, andrógina. Deslizando pelo espelho, esta noite. Beijando-me a curta distância.

(a paixão dos amantes)

De repente eu seria outra pessoa, no escuro, olhando a janela. O vento prenunciando uma tempestade, as folhas voando, circulando como que em côrte na minha janela antes de voarem em espiral para cima ou para baixo. Sentado, cabeça apoiada nos braços por cima dos joelhos. O deslizar do vento sobre o vidro, o beijo de um amante ao frio toque da areia transformada pelo calor. Filho do calor, porém tão frio ao toque. O vidro da janela, único entreposto entre eu, as folhas dançando a meia altura, e o abraço malicioso do vento, convidando-me a buscar, lá fora, o anseio desse sonho desperto, dessa insônia deserta.

(é para os mortos)

De repente eu seria outra pessoa, dançando na sala, com o toca discos de meu pai como regente e as velas nessa meia-luz como espectadoras. Canções de outrora tão ávidas como o agora, consumindo minha percepção do "eu", me tornando "teu", teu, teu. Minha sala, agora não mais ela, mas sim dela - como tudo nela: televisor, sofás, livros... ah, cadela. Dançando, passos gentis, um quase bolero em câmera lenta, corpo junto ao corpo, olhos fechados. O som do francês indo e vindo, o alemão esvaindo, entremeios de meus (nossos) passos nesse interlúdio á meia-luz.
Aquele toque, frio e insincero, como de uma luva de couro na minha face. A ponta dos dedos, apenas a ponta, lentamente se aproximando, como vindo de quilômetros de distância, retendo-se perigosamente perto de minha pele em uma quase eterna antecipação. Nessa breve eternidade o mundo silencia, as velas apagam-se, e escuto apenas tua mão (por deus, a ESCUTO). Por fim, o toque... leve, leve, leve.
(lá fora, passos na calçada úmida. Tão escuro.)


Quase

inexistente.

Breve.
(e eterno)








E meu corpo desabando
aos teus
pés.

(tua mão enluvada novamente longe, longe)

Como ser eu? Não, impossível. Sublimar-me poderia, por fim. Teu coração aberto, e eu sendo teu escravo por fim. Teu lado sombrio revelado esta noite. Sim, eu abraçaria. Porém, com teu lado fraco revelado esta noite... por Deus, o que eu faria?

De repente... seríamos.
Testemunhas. Cromáticas.

(no escuro)



Yog MARS - 4:46 AM